Ser ou não Ser? O dilema da educação.

Posted on 07/09/2008

2


Bom, retomando a temática do blog – analisar de que forma nós processamos as informações que nos chega e de que modo somos afetados por ela – irei abordar o assunto da educação, com a perspectiva de um iniciante na profissão de professor, e também, como cidadão que acredita no papel que a educação-conscientização pode exercer para a mudança/revolução em um país que consegue ser um dos mais desiguais de todo o globo mesmo possuindo uma reserva gigantesca de alimentos, energia, extensão, ótimo clima que proporciona ótimas safras.

Esta semana eu tive alguns “problemas” que me afetaram profundamente, na quinta-feira aconteceu dois casos que me deixaram muito pertubado. No primeiro caso, estava eu tentando dar minha aula de teoria da religião, estava falando sobre a posição do governo americano em relação aos adeptos do Islã e de que forma o governo americano utiliza este discurso para convencer ao mundo que o Iraque tinha relações com a rede terrorista Al- Qaeda. Em um certo momento da aula, um aluno disse: – Professor não quero fazer nada na sua aula, e logo em seguida, outro fez o mesmo. E como é normal nestes casos eu pedi para que se retirasse então da minha aula e fosse conversar com as pedagogas. Logo em seguida, eu fui conversar com os meninos e com a Pedagoga e me deparei com uma realidade que até então eu sabia de sua existência mas nunca tinha tido o contato tão forte com ela. A história de um dos meninos era a seguinte: o menino de 11 anos que têm 2 irmãos (um menino que já foi expulso deste mesmo colégio e uma menina que está para ser expulsa também). Esta criança tem sérios problemas de disciplina mas eu logo entendi o porque. Ele me contou que sua mãe vive no litoral do paraná com um cara (as pedagogas me disseram que ela é prostituta) e este menino e seus irmãos moram em Curitiba com a avó. Mas estas crianças já não querem mais viver com a vó, e sim, com a mãe, o problema é que caso a mãe os leve para morar com ela no litoral a avó perde a pensão paga pela mãe para cuidar das crianças, e também a mãe não pode os levar para sua cidade porque vive com um cara que não a deixa traze-las e sua profissão tampouco permite.

De que forma uma criança pode estudar e ser disciplinada desta forma? Como o professor deve intervir neste caso? Realmente não sei o que fazer. O Estado não fornece nenhum apoio para estas famílias e este caso não é uma ilha, não é algo isolado é a realidade de milhões de famílias brasileiras. É muito difícil porque caso o professor resolva fazer alguma coisa por estas crianças além de comprar uma briga com os pais que não consiguiram entender o real motivo de uma ajuda externa, como também é comprar briga com a própria escola que não quer intervir no seu relacionamento familiar dos alunos.

O segundo caso é muito parecido, depois de retirar o aluno da sala de aula e me deparei com outra história de desestrutura familiar. O aluno também tem por volta de 11 anos, ele me contou esta história com tanta naturalidade que me pareceu estar contando uma piada. Ele tem 3 irmãos, o pai dese menino está preso por roubo a mão armada, a mãe dele está em uma clínica de recuperação de usuários de drogas (a clínica de reabilitação fica em outra cidade). E o irmão mais velho também está preso por assassinato (ele matou uma pessoa no bar), quem cuida da criança em questão é sua irmã de 16 anos que já esta casada e tem um filho. Ele também relatou que os narco-traficantes queriam entrar na sua casa para pegar os móveis de valor para quitar a dívida que sua mãe tinha com eles mas por sorte seu pai ainda não estava preso e não deixou. Este menino trabalha com seu tio de manhã (antes da escola) e pela noite (depois da escola) e ganha miseros 20 REAIS POR SEMANA, na escola eu aprendi que isso é trabalho infantil escravo não vejo outro nome para isto. Me digam qual outra hora que esta criança tem para brincar? se trabalha de manhã e a noite e vai para a escola no período da tarde. Na escola dizem que é muito bom que ele esteja trabalhando porque assim ele ocupa o tempo e não fica na rua, mesmo a criança ganhando uma miséria para trabalhar todo este tempo.

Não há nenhum projeto por parte do Estado para dar uma vida digna para estas crianças, não há escolas em período integral, não a vontade política para agir conforme deveria. Como uma criança com estes exemplos que tem na sua família pode crescer e ser “normal” a distinção entre certo e errado é uma linha tênue que que é difícil aprender em casa quanto mais na escola. Qual é o futuro de uma nação que trata seus filhos como se fosse SOBRAS? De que fora esta criança crescerá e quais vão ser seus proplemas psicológicos? Já que seus padrões estéticos, políticos, familiares, são dados um alguem externo (a Televisão) e quando esta criança olha para dentro de casa e não vê nada parecido, qual é o sentimento desta criança? Qual sua culpa de nascer na família errada?

Eu perguntei a este menino o que ele esperava do futuro o que ele pensa que estaria fazendo daqui 5 anos. A resposta foi: – Penso que daqui cinco anos vou estar trabalhando. Isto é o que nós (professores e pedagogos) queriamos ouvir mas realmente não acredito que isto seja o que ele realmente quer.

Realmente eu gostaria de ouví-los, de sugestões, de que posso fazer para ajudar a estes meninos.

Anúncios